Digitalização, análise de dados e Open Finance ampliam possibilidades de concessão de crédito; para André Maniezo, da INFOX Payments, varejistas entram em uma nova fase da oferta de serviços financeiros
O varejo brasileiro vive um cenário de contrastes. De um lado, o país registra níveis elevados de inadimplência entre consumidores e empresas. Do outro, o setor continua buscando alternativas para estimular vendas, aumentar a recorrência de compra e fortalecer o relacionamento com os clientes. Nesse movimento, o crédito próprio ganha espaço como uma ferramenta estratégica para os varejistas.
Em maio de 2026, o Brasil chegou a 83,5 milhões de consumidores inadimplentes, segundo a Serasa Experian. O número equivale ao maior patamar da série histórica, com cada consumidor negativado concentrando, em média, cerca de quatro dívidas e um valor aproximado de R$6.877,23.
O cenário também é desafiador para as empresas. No mesmo mês, mais de 9 milhões de CNPJs estavam negativados, acumulando R$229,9 bilhões em dívidas. Em média, cada empresa inadimplente possuía sete contas em atraso, com dívida média de R$25.494,08.
Apesar das dificuldades, o comércio mantém espaço para crescimento. Segundo a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do IBGE, o volume de vendas do varejo acumulava alta de 1,7% em 2026 até maio e crescimento de 1,4% nos 12 meses encerrados em maio. Na comparação com maio de 2025, houve avanço de 0,4%.
É nesse ambiente que o crédito próprio passa a ser encarado pelo varejo não apenas como uma forma de facilitar o pagamento, mas como uma ferramenta para ampliar vendas, fidelizar consumidores e criar novas possibilidades de relacionamento.
“O crédito próprio deixou de ser apenas uma ferramenta para facilitar o pagamento. Hoje, ele pode fazer parte da estratégia do varejista, permitindo conhecer melhor o consumidor, oferecer uma condição adequada ao seu perfil e, ao mesmo tempo, criar novas oportunidades de relacionamento e geração de receita”, afirma André Maniezo, CEO da INFOX Payments.
Tecnologia muda a lógica da concessão
Durante décadas, o crédito próprio esteve associado principalmente aos cartões private label e aos tradicionais cartões de loja. A digitalização, entretanto, vem ampliando esse conceito, incorporando ferramentas de automação, análise de dados, inteligência artificial e integração de serviços financeiros.
O avanço do Open Finance é parte dessa transformação. Segundo o Banco Central, o ecossistema já alcançou dezenas de milhões de contas conectadas e segue ampliando as possibilidades de compartilhamento de informações financeiras mediante autorização dos clientes. Em agosto de 2025, o BC informou que o sistema contava com 103 milhões de autorizações ativas de compartilhamento de dados, envolvendo 68 milhões de contas.
A infraestrutura continua evoluindo em 2026. Em abril, o Banco Central publicou a versão 7.0 do Manual de Escopo de Dados e Serviços do Open Finance, ampliando e atualizando as especificações do ecossistema.
“Quando conseguimos combinar dados, tecnologia e conhecimento da operação do varejo, a análise deixa de depender apenas de informações tradicionais. O objetivo passa a ser entender melhor o comportamento e o momento daquele consumidor para tomar uma decisão mais adequada”, diz Maniezo.
Para o executivo, a transformação tecnológica não significa simplesmente aumentar a quantidade de crédito disponível, mas melhorar a qualidade das decisões.
“O grande desafio não é simplesmente conceder mais crédito. É conceder melhor. Quando falamos de automação, dados e inteligência na tomada de decisão, estamos falando de buscar equilíbrio entre a oportunidade de venda para o varejista e uma oferta que faça sentido para o consumidor”, finaliza.
(Fotos: Divulgação)
