Depois da repercussão de “Velório de Malandro”, o artista mineiro Pepi apresenta “Ainda Está Aqui”, seu novo EP com seis faixas inéditas. Longe da lógica dos singles isolados, o trabalho foi concebido como uma obra contínua, em que cada faixa ocupa um papel narrativo e sonoro dentro de um percurso cuidadosamente construído.
As letras e os arranjos foram escritos em 2022, e ficaram guardados até que em junho 2026, o trabalho foi finalizado. O EP carrega justamente a marca do tempo como elemento criativo. Não por acaso, o título resume sua principal inquietação: As coisas que ficam ou que escolhemos deixar que fiquem enquanto tudo ao redor se transforma.
Em vez de responder às tendências mais imediatas da música urbana, Pepi utiliza o trap, o rap e o funk como pontos de partida para investigar outras possibilidades estéticas. Beats eletrônicos convivem com tambores, percussões orgânicas, texturas tribais e um violão latino de forte identidade brasileira, executado pelo próprio artista. O resultado não busca conciliar dois universos distintos, mas dissolver as fronteiras entre eles.
A produção musical é assinada por B.O Beats (Gabriel Boiani), a capa por Igor Kemuel enquanto a cantora ЯR (Ruth Rock) amplia a dimensão emocional do trabalho com backing vocals que dialogam organicamente com a interpretação de Pepi.
Há uma preocupação evidente com a arquitetura do disco. A ordem das faixas constitui parte da experiência de escuta e conduz o ouvinte por diferentes estados emocionais. No centro dessa narrativa, a quarta faixa, “Flor Perigosa”, representa um deslocamento deliberado. Em vez da atmosfera predominante do EP, a música mergulha em um samba Rock gravado com características de performance ao vivo, apontando para uma dimensão cênica que deverá ganhar corpo nos futuros shows do artista, com banda completa, metais e uma seção de percussão expandida.
Mais do que uma mudança de gênero, “Flor Perigosa” funciona como um respiro dentro da dramaturgia do álbum. É o momento em que a organicidade assume o protagonismo e evidencia uma das principais características da pesquisa musical de Pepi: aproximar o vocabulário da música urbana contemporânea da riqueza rítmica brasileira e afro-latino-americana. Ecos de Jorge Ben Jor, da pulsação hipnótica de Fela Kuti e das tradições percussivas do Brasil aparecem não como citações, mas como referências absorvidas e reinterpretadas dentro de uma linguagem própria.
O conceito de “Ainda Está Aqui” atravessa todas as composições. O EP fala sobre tudo aquilo que fica: afetos, ausências, lembranças, cicatrizes e identidades. O amor ainda está aqui. A dor ainda está aqui. A memória ainda está aqui. O próprio artista ainda está aqui. Em vez de tratar a permanência como nostalgia, Pepi a transforma em força criativa e em matéria para uma obra que reconhece as mudanças sem abandonar suas raízes.
Essa relação entre o que fica ou oque deveria ter ido também aparece na sonoridade do disco. Enquanto boa parte da produção urbana contemporânea privilegia a velocidade do consumo, Pepi propõe uma escuta de álbum, na qual texturas, silêncios, contrastes e mudanças de atmosfera revelam novos significados a cada audição.
Com “Ainda Está Aqui”, Pepi reafirma uma trajetória artística interessada em ampliar os limites da música urbana brasileira. Seu novo trabalho aproxima tradição e
contemporaneidade sem recorrer ao pastiche, construindo uma identidade que transita entre o eletrônico e o orgânico, entre o íntimo e o coletivo, entre a rua e a memória.
O EP já está disponível em todas as plataformas digitais e ganha, no YouTube, um visualizer exclusivo que expande visualmente o universo estético do projeto.
Mais do que apresentar seis músicas inéditas, “Ainda Está Aqui” convida o público a percorrer uma obra que entende o tempo não como apagamento, mas como permanência. Afinal, algumas coisas simplesmente continuam existindo. Ruim ou bom muita coisa fica, muita coisa ainda está aqui, no meio de nós.
