Práticas simples na cozinha ajudam a economizar, preservar recursos e transformar a relação com a comida, explica a chef Tânia Bastos
O desperdício de alimentos segue como um dos grandes paradoxos do Brasil. Um dos maiores produtores de comida do mundo, o país ainda descarta cerca de 30% de tudo o que produz, o equivalente a mais de 46 milhões de toneladas de alimentos por ano, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O impacto não é apenas ambiental: o prejuízo econômico ultrapassa R$ 60 bilhões anuais, enquanto milhões de brasileiros enfrentam algum grau de insegurança alimentar.
Grande parte desse desperdício acontece dentro de casa. Compras sem planejamento, armazenamento inadequado e o hábito de descartar cascas, talos e sobras contribuem para que alimentos ainda próprios para consumo acabem no lixo. É nesse ponto que o reaproveitamento surge como uma ferramenta poderosa e acessível.
Para a chef Tânia Bastos, cozinhar de forma consciente começa com uma mudança de olhar. “Quando entendemos que o alimento tem valor do início ao fim, passamos a desperdiçar menos. Casca, talo e semente não são restos, são ingredientes”, afirma.
Segundo ela, itens que costumam ser descartados podem ganhar novas funções na cozinha. Talos viram refogados, cascas se transformam em caldos e chips, frutas maduras demais podem virar compotas, bolos ou geleias. Além de reduzir o volume de lixo, o aproveitamento integral amplia o repertório culinário e o valor nutricional das refeições.
Estudos sobre perdas e desperdício mostram que frutas, legumes e verduras estão entre os alimentos mais jogados fora, especialmente por questões estéticas ou por má conservação. Em feiras, mercados e residências, grande parte dessas perdas seria evitável com informação e planejamento.
Embora não haja um levantamento específico consolidado apenas sobre Porto Alegre, pesquisas realizadas em capitais brasileiras indicam que o descarte de alimentos orgânicos representa uma parcela significativa do lixo urbano. Isso reforça a importância de ações locais e mudanças de comportamento no consumo doméstico e também no setor de bares e restaurantes.
Para Tânia Bastos, o reaproveitamento não significa improviso sem critério. “Planejar as compras, respeitar a sazonalidade dos alimentos e cozinhar com atenção fazem toda a diferença. Quando sobra comida, ela pode ser a base da próxima refeição”, explica. A chef destaca ainda que cozinhas profissionais já adotam essas práticas por necessidade econômica, mas elas também fazem sentido na rotina das famílias.
Reduzir o desperdício é uma escolha que impacta o bolso, o meio ambiente e a sociedade. Ao reaproveitar alimentos, diminui-se a pressão sobre a produção agrícola, o consumo de água e energia e o volume de resíduos enviados a aterros sanitários. Pequenos gestos, repetidos diariamente, ajudam a enfrentar um problema estrutural.
(Foto: Arquivo Pessoal)
